Sumaya

Sábado, Maio 15, 2004


3.

Trim, Trim, Trim. Ah! Esse telefone. Alô. Gabriela? Sim. Sou eu, mamãe. Oi mãe, que saudades, quando você volta? Eu e seu pai estamos voltando amanhã, está tudo bem por aí? Tudo em ordem. Ok, fique com Deus. Um beijo. Tchau.
Essa era minha mãe, sempre preocupada, ligava todos os dias. Trabalhava muito e por sorte conseguiu tirar férias junto com o papai. Eles eram felizes.
Trim, Trim, Trim. Novamente o telefone. Alô. Oi meu amor. Oi Rô. Como foi a prova? Difícil. Mais tarde eu passo aí, afim de um cinema? Tá tudo bem eu te espero. Um beijo te adoro. Também te adoro, beijo.
Rodrigo, meu primeiro namorado. Juntos há 2 anos, 7 meses e 4 dias. Sempre muito apaixonado. Grude demais às vezes. Mais nunca brigávamos, ele sempre arrumava uma solução pra tudo.
Olhei e lá estava o diário, sempre brilhando. Peguei-o, aquele brilho me deixava hipnotizada.
Toc, toc, toc. Parece que algo ou alguém sempre me impedia de ler o conteúdo do diário.
Era a Júlia pedindo para eu conversar com a Dona Sumaya sobre o médico. Júlia apesar da pouca idade tomava certas atitudes de adultos, era muito preocupada com Dona Sumaya. Ela foi adotada ainda pequena, devia ter menos de 1 ano e por incrível que pareça nunca chamou Dona Sumaya de mãe, ninguém entendia muito bem porque. Mais tarde eu iria saber.
Vovó! Gritou Júlia. Gabriela está aqui. Escuto passos e logo aquela imagem. Dona Sumaya parecia um anjo. Não pela sua aparência, mais sim pelo seu jeito angelical de ser. Olá Gabriela, como vai? Vou bem e a senhora melhorou? Não é nada demais, só foi um mal estar. A Júlia que é sempre muito preocupada. Mais a senhora deveria procurar um médico, não acha? Gabriela eu já fui ao médico, tenho apenas um problema de pressão, nada muito grave. Você aceita um café? Sim, aceito. Dona Sumaya se dirigiu a cozinha e eu fui atrás. Nunca tinha reparado, mais olhando para a Dona Sumaya percebi que ela tinha um brilho. Sim ela brilhava como o seu diário. Dona Sumaya tinha 56 anos. Morava na vila desde os 26 anos, nunca ninguém soube nada da sua vida. Sempre muito misteriosa, aguçava a curiosidade de muitos... Para aquela vila, a vida dela era uma lenda. Agradeci o café e fui para casa, tinha que me arrumar, Rodrigo já devia estar por chegar. Abri a porta e dei de cara com o diário. Peguei-o mais uma vez coloquei-o dentro do meu armário, aproveitei para escolher minha roupa. Me arrumei e fui esperar o Rodrigo na porta da vila. Ele chegou, entrei no carro e só pensava no diário. Ele perguntou qual filme eu preferia assistir. O Homem do Ano, respondi.
Cheguei em casa por volta de 1:00 da manhã. O filme foi bom, mais ainda assim preferia o livro. Sempre gostei muito de ler, lembrei do diário. Peguei-o mais uma vez, estava tarde, estava cansada. Resolvi dormir.


Segunda-feira, Maio 03, 2004


2.

O despertador tocou. Seis horas da manhã do dia 20 de junho de 2003. Finalmente chegou o último dia de aula. Levantei calmamente, liguei o rádio, isso um hábito, estava tocando More Than Words, quem não gosta dessa música, lembrava o meu primeiro beijo. Comecei a me arrumar calmamente e batem na porta. Era a Priscilla, minha melhor amiga, morava na casa sete, tinha 22 anos, sempre apressada, veio logo gritando e dizendo que estávamos atrasadas para a faculdade. Terminei de me arrumar e lembrei do diário, joguei ele na minha bolsa.
Aquela prova realmente estava difícil, Literatura Inglesa não era fácil com Priscilla dizia.
De volta ao lar, às vezes pensava como Niterói era tão longe de Botafogo.
Entrei em casa, prefarei algo para comer, sentei, peguei minha bolsa, tirei de dentro dela aquela preciosidade. Ainda não tinha percebido mais a capa brilhava, era dourado, um dourado forte, parecia ouro. Foliei rapidamente o diário, deu para perceber que ali se escondia à história de uma vida, existiam poemas, fotos, textos. Fechei-o e por alguns instantes pensei em devolvê-lo, mais como faria, iria dizer que havia pego por engano ou colocaria no mesmo lugar sem dizer nada a ninguém. Mais essa era uma oportunidade única, não teria outra igual. Porém estava muito cansada naquele momento. Adormeci ali mesmo no sofá.


Segunda-feira, Abril 26, 2004


1.

"Escrevi pra você, você não respondeu, também não respondi quando você me escreveu...". O som estava ambiente, Legião Urbana, uma das minhas bandas prediletas. Era um daqueles dias perfeitos meus pais estavam viajando, estava sozinha, escutando música, falando no telefone, as luzes apagadas, tudo perfeito. Até que batem na porta, em um primeiro momento fingi não escutar, insistem e ainda gritam pelo meu nome, deve ser importante pensei, pedi um momento no telefone e fui ver o que era.
Era a Júlia a menina que morava na casa 10, tinha os seus nove anos, cabelos escuros, olhos claros, era a criança mais bonita daquela vila. Ela me cutucava impacientemente falando que a Dona Sumaya havia passado mal. Corri para o telefone e disse que depois retornaria a ligação.
Fui ao encontro de Júlia e juntas fomos ver a Dona Sumaya. Entramos na casa 10, uma das casas mais bonitas da vila, a casa sempre muito arrumada. Passamos pela sala, pelo corredor e chegamos a um dos quartos. Paredes pintadas de salmon, móveis rústicos, uma cama de casal, uma cômoda, um guarda-roupa, olhando tudo em volta, me pego com o olhar fixo em um objeto, parecia um caderno, muito grosso, estava aberto, as folhas já estavam meio amareladas, sim era ele o diário de Dona Sumaya, o famoso diário, ninguém nunca o tinha visto, era muito falado por todos da vila, fiquei paralisada ali por alguns segundos, parecia sonhar e só acordar quando escutei a voz doce de Júlia me chamando. Gabriela, Gabriela!!! Respondi o que foi? Ela disse, vovô adormeceu. Perguntei o que havia acontecido ela me respondeu que Dona Sumaya havia se sentido tonta, via tudo branco pela frente e resolveu se deitar e que ela estava muito preocupada porque sua vó estava sentido isso constatemente. Disse que Dona Sumaya deveria procurar um médico e fiquei de conversar com ela assim que acordasse. Júlia pediu para eu olhar Dona Sumaya enquanto ela tomava banho. Respondi que tudo bem.
Eu, Dona Sumaya e o famoso diário. Dona Sumaya dormia como um anjo, o diário estava ali me olhando, ou melhor, eu estava ali olhando para ele, completamente paralisada. Então decidi levar o diário comigo, daria uma olhada e devolveria no máximo no dia seguinte. Eu estava com uma blusa dessas de malha, pensei rápido e antes que Júlia voltasse escondi o diário em baixo da blusa. Júlia voltou correndo. Disse ter escutado um barulho, provavelmente eu fiz algum barulho enquanto pegava o famoso diário. Já eram 23h e resolvi ir embora.
Júlia me levou até a porta, assim que me despedi fiquei novamente paralisada, eu ali em pé na calçada, pensando como eu, pude pegar um objeto tão precioso para Dona Sumaya. Fui caminhando em direção a casa 12, a última casa da vila, a casa da minha família, a maior casa, talvez porque meu bisavô construiu assim, acho que ele já sabia que a nossa família nunca sairia dali. Continuava perplexa, caminhando em direção a minha casa. De repente alguém segura o meu braço, com o susto acabei deixando o diário cair. Era Rodrigo, meu namorado, tinha ficado preocupado pois eu desliguei o telefone sem muitas explicações. Não sabia o que fazer, se abraçava o meu namorado ou se pegava o diário e as folhas que haviam se espalhado pela calçada. Decidi pela 2º opção. Ele me encheu de perguntas sobre o tal objeto. Fiquei meia sem jeito, desconversei e corri para dentro de casa para guardar o diário. Rapidamente escondi o diário no fundo do meu armário. Voltei para rua, beijei Rodrigo e disse que estava tudo bem e que no outro dia explicaria o que tinha acontecido. Usando a desculpa que estava cansada e queria dormir, pedi para ele ir embora. E não era mentira, realmente estava cansada, no dia seguinte era o último dia de aula do semestre e tinha uma prova que não era fácil. Entrei, tomei um banho, escovei os dentes e fui dormir. Antes, peguei o diário o botei ao meu lado. Dormi abraçada ao diário.


Home